Companhias para um capuccino

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Transe

Depois de transarmos sem grandes pretensões amorosas, estava ela defronte a janela do apartamento com ares de satisfação. E pela direção de seus olhos, parecia fitar a rua em que o meu carro havia sido estacionado; se não, o próprio carro.

Da cama, fiquei a tateá-la de vista por algum tempo. Penso que não a inibi com isso, pois ao se dar conta do que acontecia, sorriu permissiva e espreguiçou vagarosamente.

No entremeio desses vislumbres, a tarde parecia se esvair tão vagarosa quanto o espreguiçar. Deduzi pela luz castanha que aproveitava a janela aberta para sobrepor-se e cobrir boa parte do corpo dela, branco e longilíneo, desnudado frente a mim.

E como que se não nos bastasse essa invasão descarada do abajur vespertino, a quentura de todo um dia de verão intenso nos adentrava os poros afogados em suor, e tomava-nos o quarto.

Nós ficamos assim, aquecidos e acompanhados pela primeira vez e por algumas horas.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Abrasileirado

Verde ou amarelo
no canteiro
de terra brasilis
cantava
o sabiá-laranjeira
duma verde bananeira
de maneira patriota

Ele era patriota

e morreu de patriota
que era.

Infeliz

por ver a verde nota
comprar amarelo alqueire
se ajuntou com os Sem Terra
pediu por reforma agrária
sem enxada
com a fé de brasileiro.

Ele era brasileiro

e morreu de brasileiro
que era.

Ensanguentado
do tiro certeiro
que a espingarda enferrujada
de um amarelo fazendeiro
disparara
sem trégua
para a verde bananeira.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Cada um dá o que pode.

Com barro, sangue e um panfleto de liquidação sobre as fuças, estava debruçado o desconhecido, em frente ao boteco do Mané Preto, na esquina da rua oito com a principal.

A comunidade já estava acostumada ao barro e a outros diversos incidentes causados pelos problemas de escoamento. Inclusive, o próprio Mané Preto, por conta do alagamento que ocorrera dias antes desse despacho, tinha perdido a geladeira nova que lhe acumulara dívida para mais de um ano.

O tal presunto é que era coisa fresca na favela.

Naquela segunda-feira, "dia de branco" - como reza a oração da burguesia -, pouco demorou para que toda gente da vizinhança se achegasse ao desgraçado.

E a lotação, que costumava sair do bairro abarrotada de marmiteiros, pedreiros, engraxates, bicheiros, cafetões, putas, diaristas e catadores de cobre, alumínio e papelão, levou só meia dúzia de mercenários - daqueles que não estampam qualquer consideração pelo próximo - sem fé no principal mandamento do Nosso Senhor Jesus Cristinho.

A maioria, comovida e indignada, ficou para prestar homenagem de muita reza e lágrima.

As beatas se prontificaram rapidamente. Esfregavam compulsivas os seus terços ensebados por entre os dedos, rezando decorados Padre-Nossos e Ave-Marias; o mutirão acompanhava.

De frente para a reza, nas banquetas do boteco, homens bebiam o defunto pela conta do Mané Preto, e conversavam a vida, e matavam a vida.

Cada um dos presentes, tão desgraçado quanto o indigente, colaborava com o que podia. Afinal, até mesmo o tal, que imóvel e debruçado nada fazia, colaborara morrendo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Gringa

Luzia é uma puta de afetos. Ao menos, foi o que ela me disse. Eu, particularmente, confesso que a comeria mesmo que tivesse de pagar. Não que eu já não o faça, gastando o miserê que me sobra do batedor com prendas de todo custo para custear as nossas boas trepadas.

Ela adora essas bajulações, mas finge que não faz conta disso e daquilo. E eu até acho graça nesses trejeitos, mas me viro nos trambiques para descolar cacife e bancar os seus caprichos; - é que me vexa pensar que não posso lhe oferecer o bastante.

Mas a danada é "ponto-morto de choferes; passadiço de navais". Vive a gabar as pretensões de morar no estrangeiro. E é na cama do seu quartinho de fundos, no cortiço do beco, que poliglota em cima de inglês, francês e alemão, para tirar o seu passaporte.

Dia desses, depois duma dessas gozadas que deixam qualquer diabo apaixonado, eu assuntei com a batuta:

- Ô, Luzia, se você for pros estrangeiro, me leva contigo?

- Oxe, homem! E pra quê?

- Como pra quê, minha nega? Quem vai lhe dar esse dengo todo? Ou você pensa que esses gringo muquirana vão lhe ter essa estima que eu lhe tenho?

Só que a vagabunda, por essa luz que me ilumina, soltou uma risada do Satanás e me sussurrou:

- E estima enche barriga?

sábado, 24 de abril de 2010

De isqueiro aceso.

Atirou as flores, que eu havia comprado com alguns trocados de jogo, da porta dos fundos para a rua do beco; depois se trancou dentro do quarto e gritou, com a voz embargada de choro escandaloso, para que eu fosse embora de lá.

Eu não fui. E pelo vão da tramela, pedi mais de uma vez para entrar. Mas a desgraçada ignorava a minha voz e insistia nos choramingos, como que se de uma hora para a outra lhe pingasse algum sentimento das tetas chupadas de mulher da vida.

Senti mais vontade de chupar aquelas tetas. E eu o faria; bastava ela me abrir o diabo da porta.

Numa última tentativa, sem mais um tostão de persuasão, saquei do bolso de meu paletó um maço de cigarros começado, empurrei-o por debaixo da porta e arrematei:

- Deixa eu entrar para lhe acender alguns, querida.

Foi então que, de olhos vermelhos e cigarro na boca, ela me abriu a porta e as pernas.

domingo, 18 de abril de 2010

Ouça-me, no Myspace!

Eu diria que, para o trabalho de um paulista de firma quebrada, com a cachola cheia e a carteira vazia, o título "Samba duro" parece bastante sugestivo... É que sambista, meu bom, não vale o quanto pesa, mas o quanto pensa! E de fato, sem trato, esse é o nome do projeto de Lina, compositor da nova safra paulista, que visa mesclar a contemporaneidade do samba-rock com a tradição do samba-de-mesa, na crista da onda das experimentações.
Infelizmente, por causa do bolso vazio, o disco de Lina ainda não saiu. Mas, para todos os efeitos, a demo já está AQUI! Por isso, ouça e tire a prova de que o samba é duro, mas não cobra os seus ouvidos.

sábado, 27 de março de 2010

Papo qualquer coisa.

- Tudo acabou.

Foi o que ela me disse, poucos minutos atrás, num interurbano. Disse em pausas curtas, como que se imaginasse as consequências por cada sílaba. Eu ouvi todas. Só ouvi. Achei até que ela não acabaria, - seria eu presunçoso demais para o término? - mas ela ousou mais que o de costume. E desligou tão depressa, que pude acabar o cigarro aceso e beber o café ainda quente. Mas não agradeço a ela por isso, porque a cafeteira nova é muito boa.

Eu até pensei que o telefone voltaria a tocar, mas não aconteceu. É que nós assistimos a uma comédia romântica, na semana passada e... É engraçada essa confusão pronominal. A partir de agora, eu terei de usar "nós" só para conjugar pretéritos. Ela também. E, por (in)consequência, nós usaremos "eu" para todo presente e futuro que sobra, por enquanto.

(...)

A pergunta que fica é: até quando?

terça-feira, 2 de março de 2010

Há de chegar o dia
em que eu
exausto da poesia
te direi:
- Acabei, Maria.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Paga-se a visita.

Ao acordar, em minha cama inflamavam faíscas de sol que escapavam ao quarto pelas frestas da janela. Em mim, uma quentura, sabe-se lá se do sol ou do corpo moreno que me acompanhava, quase que afogava os meus poros em suor. Decerto, era o sol.

Levantei-me cheio dos silêncios nos gestos para não acordar a mulher. Ainda assim, pouco demorou até que ela se levantasse, por si só ou pelo cheiro de café que impregnava toda a casa, e me acompanhasse à mesa.

Satisfeito com o desconhecido “bom dia” acompanhado dum beijo breve, saí para comprar cigarros. A mim, bastava; a ela, não sei. Nunca fiz conta de muito assunto. Talvez ela supusesse, pois não disse mais.

As ruas estavam muito quentes. Do chão, subia a fervura do concreto e o cheiro da gasolina dos carros que, mesclado aos perfumes baratos de uma ou outra mulher que cruzava o passo de meu trajeto, causava-me engulhos. Eu não gostava da cidade; também não gostava do calor que fazia lá.

- Bom dia, Zé. Me veja um maço de Marlboro vermelho.
- Cuidado com os câncer, rapaz!

Eu sempre comprava cigarros na venda do Zé, um senhor de sessenta e poucos anos que se ocupava em dar conselhos furados à sua meia dúzia de fregueses... É por isso que eu ficava só com os cigarros.

- Aqui está, Zé. Não carece de troco, não.

Saí da venda ainda com a sensação de que vomitaria na próxima fulana que passasse cheirando a prostituta ao meu lado; e apressei o passo para que não perdesse a bile.

Chegando, o barulho do chuveiro indicava que a minha prostituta ainda estava em casa. Eu sei que não é prudente apossar-se de uma, mas enquanto ela estivesse em minha casa, seria a minha prostituta.

Recostei-me na porta do banheiro e fiquei a espreitá-la.

- Há quanto tempo você está aí?
- Acabei de chegar.
- Quer entrar? A água está ótima!

O convite, pouco tentador para a ocasião, parecia agradá-la, pois seu tom de voz acompanhava um risinho frouxo... Não, ela não me levaria nem mais um centavo. Eu apenas sorri, puxando um cigarro do maço, e fui fumar na porta da cozinha, que dava no corredor.

Quando ela saiu já trocada, viu o seu pagamento debaixo de um guardanapo de papel com o número de meu telefone sobre a mesa; fitou-me, por alguns instantes; apanhou apenas o dinheiro e foi embora, assoviando Chicos e Caetanos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pedaço de mim

"...Oh, pedaço de mim!
Oh, metade amputada de mim,
leva o que há de ti,
que a saudade dói latejada;
e é assim como uma fisgada
num membro que já perdi..."

(Chico Buarque - Pedaço de mim)


Eu, que prometi ser deveras forte, chorei na concha de minhas mãos vazias ao constatar-te tão decididamente tua. Nada minha; toda tua - desde o corpo aveludado até as últimas trincas do coração fossificado. Estavas completa sem mim.

Sem sombra de receio, arrancaste de uma vez um braço ou perna deste desgraçado, maldita, unicamente, para conter-te inteiriça.

Sequer imaginaste que, ver-te sair pela porta da frente de nossa casa, portando não mais que as roupas do corpo, faria-me agonizar feito um aleijado. Pensavas só em tua posse doente de ti mesma. Louca!

Por fim, para o meu fim no leito, das tantas pragas e preces que poderia te rogar, bendita, eu, entrevado com as sobras de mim, desejo tão somente que faças bom proveito de ti.