Companhias para um capuccino

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Gringa

Luzia é uma puta de afetos. Ao menos, foi o que ela me disse. Eu, particularmente, confesso que a comeria mesmo que tivesse de pagar. Não que eu já não o faça, gastando o miserê que me sobra do batedor com prendas de todo custo para custear as nossas boas trepadas.

Ela adora essas bajulações, mas finge que não faz conta disso e daquilo. E eu até acho graça nesses trejeitos, mas me viro nos trambiques para descolar cacife e bancar os seus caprichos; - é que me vexa pensar que não posso lhe oferecer o bastante.

Mas a danada é "ponto-morto de choferes; passadiço de navais". Vive a gabar as pretensões de morar no estrangeiro. E é na cama do seu quartinho de fundos, no cortiço do beco, que poliglota em cima de inglês, francês e alemão, para tirar o seu passaporte.

Dia desses, depois duma dessas gozadas que deixam qualquer diabo apaixonado, eu assuntei com a batuta:

- Ô, Luzia, se você for pros estrangeiro, me leva contigo?

- Oxe, homem! E pra quê?

- Como pra quê, minha nega? Quem vai lhe dar esse dengo todo? Ou você pensa que esses gringo muquirana vão lhe ter essa estima que eu lhe tenho?

Só que a vagabunda, por essa luz que me ilumina, soltou uma risada do Satanás e me sussurrou:

- E estima enche barriga?

13 comentários:

R. Avancini disse...

porra, cara.
isso dá um samba.

Rafael Perfeito disse...

Sempre práticas essas mulheres, multidimensionais ou tóxicas!

Práticas em várias línguas e em várias posições!

Ângela Calou disse...

Texto inteligente como escrita e instigante como estória... da sutileza das ironias e do seu humor peculiar nem preciso falar...

Ah que eu gostei muito dessa tal Luzia, puta de afetos que afeta quem lê sobre sua errância, seja no estrangeiro, seja aqui, rs.

(p.s.: sim, dá samba!)

Keila Costa disse...

Muito bom!Personagens espontâneos...vi a cena...
Abraços

R. Avancini disse...

ô! escrever é sempre boa idéia. virando música no fim das contas: melhor ainda. tô sempre por aí, munido de caneta e papel. só mandar notícia e contato.

Celo Aglio disse...

Quando um escolhe por escrever, não sabe o perigo do que atesta.

De início tudo é cru... o que lhe torna bem semelhante a quem também está no início de suas aventuras literárias.

Daí... com o passar do tempo e do acúmulo de viveres, a escrita torna-se, em sua maior definição, uma tradução ímpar e inconfundível da ânsia por ser tudo aquilo que escreve. Ao seu modo.

Você é assim, orgulho-me, fico sentadinho só admirando e esperando cada vez por mais.

Leca disse...

...Parece que a moça...
sabe o que quer...
e sabe muito bem bem o que não quer...
...Parece que você vai precisar trabalhar um bocado mais e sustentear a moça no estrangeiro...
beijos
gentis...
Leca

Poems and Coffee disse...

O que é isso? Sem palavras!!!! Genial, quando eu crescer quero escrever assimm!!

Bárbara Araujo disse...

O que mais me encanta é que parece que eu vou encontrar um dos personagens dos seus textos no elevador do meu prédio.

É maravilhoso!

Ótimo, como todos os outros.

(marta silva) disse...

nossa, muito muito bom, inteligente e divertidissimo.

AnjoMoroni.com.br disse...

A nega tinha o sonho de não ter ninguém e pronto! Nada melhor do que uma vida vazia e irresponsável que passa rápido! Logo todos temos o mesmo destino... Triste atitude...

VERSOS & VÍCIOS - oráculo novo disse...

Grande Clayton, procurei postar meu comentário logo que terminei a leitura.
É preciso um pensamento sincopado para num ar fresco da noite junto a um café pequeno, tentar voar, mesmo que parado, rustificar o pensamento junto a uma idéia, diminuir as palavras para engrandecer o sentido. Tornar-se seco, resoável, suficiente, sem querer ser mais, sem querer ser mais que ninguém, aquilo ali, tudo contado como um golé de café forte e pequeno.
Meus parabéns!!!

VERSOS & VÍCIOS - oráculo novo disse...

Grande Clayton, procurei postar meu comentário logo que terminei a leitura.
É preciso um pensamento sincopado para num ar fresco da noite junto a um café pequeno, tentar voar, mesmo que parado, rustificar o pensamento junto a uma idéia, diminuir as palavras para engrandecer o sentido. Tornar-se seco, resoável, suficiente, sem querer ser mais, sem querer ser mais que ninguém, aquilo ali, tudo contado como um golé de café forte e pequeno.
Meus parabéns!!!