Companhias para um capuccino
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Exercício de humanidade
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Noturno
E mesmo se dormia, era um sono de cabeça para baixo, relutante, fracionado, sem sonhos. Motivos até havia para sonhar, guardava um amor, calava um amor, mas não sonhava.
O relógio batia.
A torneira pingava.
A estante rangia.
O seu gato miava.
E desse mal dormir, desse não sonhar, morria de vida em todas as noites.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Eternit
De manhã, ao chegar, ela me disse sem culpa que havia perdido a hora porque achara um bom parceiro, um sujeito pedreiro, mas chorou feito não sei o quê ao constatar que a tal da minha justificativa para a solidão de uma noite era a mesma para se desculpar pelo erro da vida a dois inteira debaixo das telhas eternit.
domingo, 15 de maio de 2011
Desgraça por desgraça
domingo, 23 de janeiro de 2011
Finesse
Durante o jantar, as suas pernas entrelaçaram as minhas como naqueles filmes americanos de putaria moderada, causando-me uma ereção. E não é que a biscatinha me confirmou que cursava Artes Cênicas numa porra de faculdade qualquer? Dava pra coisa.
Pelo óbvio, transamos na mesma noite. E só não transamos onde estávamos porque o garçom rapazola era um puto, um pudico insubornável que não nos cedeu o toilette. Ademais, a comida, o vinho, o estacionamento, tudo me custou um olho da cara.
Devo dizer que nunca me precavi da jovialidade inconsequente. Muito pelo contrário! Atesto com pouca dignidade, todavia bastante orgulhoso, que gastei, ou melhor, investi o verde dos anos e do bolso na experiência com que hoje gozo a juventude alheia; molecas, ninfetas e o cacete!
Aliás, por falar em cacete, ao estacionar em frente à sua casa, aguardei o suficiente para vê-la entrar e beijar o seu pai com a mesma boca que usara para me chupar durante todo o trajeto de volta.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Psiu, é segredo!
Os meus amigos não sabiam, porque eram de muito sarro, tinham mania de espalhar pra turma do nosso bairro que fulano era mentiroso, que cicrano era loroteiro... Eu que não contava! Já pensou como eles iriam se rir de mim, se soubessem que a gente só voltava a bater bola no portão do Pedro porque o mundo adorava um sorriso?
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Transe
Da cama, fiquei a tateá-la de vista por algum tempo. Penso que não a inibi com isso, pois ao se dar conta do que acontecia, sorriu permissiva e espreguiçou vagarosamente.
No entremeio desses vislumbres, a tarde parecia se esvair tão vagarosa quanto o espreguiçar. Deduzi pela luz castanha que aproveitava a janela aberta para sobrepor-se e cobrir boa parte do corpo dela, branco e longilíneo, desnudado frente a mim.
E como que se não nos bastasse essa invasão descarada do abajur vespertino, a quentura de todo um dia de verão intenso nos adentrava os poros afogados em suor, e tomava-nos o quarto. Nós ficamos assim, aquecidos e acompanhados pela primeira vez e por algumas horas.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Abrasileirado
no canteiro
de terra brasilis
cantava
o sabiá-laranjeira
duma verde bananeira
de maneira patriota
Ele era patriota
e morreu de patriota
que era.
Infeliz
Ele era brasileiro
e morreu de brasileiro
Ensanguentado
disparara
sem trégua
para a verde bananeira.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Cada um dá o que pode.
A comunidade já estava acostumada ao barro e a outros diversos incidentes causados pelos problemas de escoamento. Inclusive, o próprio Mané Preto, por conta do alagamento que ocorrera dias antes desse despacho, tinha perdido a geladeira nova que lhe acumulara dívida para mais de um ano.
O tal presunto é que era coisa fresca na favela.
Naquela segunda-feira, "dia de branco" - como reza a oração da burguesia -, pouco demorou para que toda gente da vizinhança se achegasse ao desgraçado.
E a lotação, que costumava sair do bairro abarrotada de marmiteiros, pedreiros, engraxates, bicheiros, cafetões, putas, diaristas e catadores de cobre, alumínio e papelão, levou só meia dúzia de mercenários - daqueles que não estampam qualquer consideração pelo próximo - sem fé no principal mandamento do Nosso Senhor Jesus Cristinho.
A maioria, comovida e indignada, ficou para prestar homenagem de muita reza e lágrima.
As beatas se prontificaram rapidamente. Esfregavam compulsivas os seus terços ensebados por entre os dedos, rezando decorados Padre-Nossos e Ave-Marias; o mutirão acompanhava.
De frente para a reza, nas banquetas do boteco, homens bebiam o defunto pela conta do Mané Preto, e conversavam a vida, e matavam a vida.
Cada um dos presentes, tão desgraçado quanto o indigente, colaborava com o que podia. Afinal, até mesmo o tal, que imóvel e debruçado nada fazia, colaborara morrendo.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Gringa
Ela adora essas bajulações, mas finge que não faz conta disso e daquilo. E eu até acho graça nesses trejeitos, mas me viro nos trambiques para descolar cacife e bancar os seus caprichos; - é que me vexa pensar que não posso lhe oferecer o bastante.
Mas a danada é "ponto-morto de choferes; passadiço de navais". Vive a gabar as pretensões de morar no estrangeiro. E é na cama do seu quartinho de fundos, no cortiço do beco, que poliglota em cima de inglês, francês e alemão, para tirar o seu passaporte.
Dia desses, depois duma dessas gozadas que deixam qualquer diabo apaixonado, eu assuntei com a batuta:
- Ô, Luzia, se você for pros estrangeiro, me leva contigo?
- Oxe, homem! E pra quê?
- Como pra quê, minha nega? Quem vai lhe dar esse dengo todo? Ou você pensa que esses gringo muquirana vão lhe ter essa estima que eu lhe tenho?
Só que a vagabunda, por essa luz que me ilumina, soltou uma risada do Satanás e me sussurrou:
- E estima enche barriga?
